7 jan 2020 - 11h24

Ações antiéticas tendem a ser aceitas por brasileiros

Teste de integridade mostra que 46% desviariam bens de suas companhias ou não denunciariam colegas

Gino Oyamada, diretor da 3G Consultoria
Para Gino Oyamada, a sociedade brasileira avançou na luta anticorrupção, mas ainda tem muito a percorrer

Pesquisa divulgada nesse começo de ano pelo jornal Valor Econômico joga um balde de água fria em quem imaginava um resultado mais promissor para as lições anticorrupção da já histórica Operação Lava-Jato. Ela mostra que ações antiéticas tendem a ser aceitas por brasileiros. Quase metade dos profissionais (46%) submetidos a um teste de integridade demonstra ter tendência a sucumbir a desvios ou a não denunciar colegas que desviam bens da empresa. Além disso, 48% manipulariam relatórios de despesas pagas pela companhia com o intuito de ganhar mais.

Na mesma pesquisa, realizada pelo Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental (IPRC), dois terços dos entrevistas (66%) demonstraram ter tendência a realizar pagamentos indevidos para beneficiar fornecedores, e somente 29% percebem que pagamentos indevidos a terceiros são uma modalidade de fraude.

O jeitinho sobrevive

“Muitas pessoas não cometem a fraude diretamente, mas se percebem um colega fazendo não interferem. Isso tem muito a ver com a nossa cultura, a ideia do jeitinho brasileiro, de aceitar ações antiéticas desde que elas não afetem diretamente a vida da pessoa”, comenta Renato Santos, diretor acadêmico do IPRC e professor de compliance no Ibmec, Gipecafi, Fecap, FIA e Trevisan Escola de Negócios.

Lançado em 2018, o instituto é resultado de uma parceria entre a S2 Consultoria e a Meu Estúdio, produtora de conteúdo de comunicação corporativa e reúne especialistas da academia e do mercado. Para chegar aos números da pesquisa, o instituto aplicou um teste desenvolvido por Santos chamado Potencial de Integridade Resiliente (PIR), em 2.435 profissionais de 24 empresas. Eles foram submetidos a um extenso questionário que simula dilemas éticos e expõe o entrevistado a diferentes situações de corrupção, apropriação indevida e fraudes.

Cultura do suborno

Santos explica que as perguntas não são diretas, do tipo “você aceitaria suborno?”. Os temas são abordados de forma sutil – como na pergunta “se você recebesse presente de um fornecedor na sua casa como você se sentiria? Feliz ou irritado?” Questões nessa linha são feitas repetidas vezes para que se consiga realmente identificar a visão do entrevistado sobre o assunto. A precisão do PIR é de 82%.

Em outra questão, o entrevistado responde à pergunta “o que te impediria de aceitar suborno”. “Se a pessoa colocar o medo de ser pega ou fato de ter um bom salário, isso indica que dependendo da situação ela pode aceitar”, diz.

Regras claras

Nesse cenário de índices tão elevados de tendência a aceitar desvios éticos no trabalho, a saída é a empresa ter um conjunto de regras de compliance e apresentá-lo ao funcionário logo que ele entra. “Às vezes, ele vem de uma empresa onde essa cultura é aceita, então é importante alinhar com ele o que a empresa não tolera em termos de política de compliance”, afirma.

Além disso, é necessário trabalhar o tema continuamente na organização. Por fim, um terceiro ponto é a manutenção de um canal de denúncias seguro e confidencial. “É fundamental dar ao funcionário a possibilidade de denunciar de forma anônima e sem qualquer tipo de retaliação.”

Longo caminho

Para Gino Oyamada, diretor da 3G Consultoria, o país avançou de forma importante nos últimos anos, em direção a um ambiente corporativo e político mais ético. Foram vitais para isso instrumentos como a Lei Anticorrupção, que acaba de completar três anos de vigência, e a Lei das Estatais.

Também cabem méritos aos esforços da força-tarefa que levou a cabo a gigantesca investigação conhecida como Operação Lava-Jato, responsável por desbaratar quadrilhas de corruptores e corruptos na esfera pública e na privada, por dezenas de prisões e pela recuperação de grandes valores para os cofres públicos.

Mas ainda há muito por fazer e para conquistar. “Esse é um esforço que cabe à toda sociedade. Mas sem dúvida as empresas e seus gestores têm uma grande responsabilidade em suas mãos, pela capacidade de construir bons exemplos e gerar resultados que sirvam de exemplo para todos. Só as empresas com boa governança serão capazes de reverter essa tendência perniciosa, e de sobreviver em um mundo que cobra cada vez mais caro pela licença social para atuar”, alerta Oyamada.

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